Já está em vigor no Distrito Federal a Lei nº 7.923/2026, que institui a Política Distrital de Acolhimento Humanizado e Atenção Integral à População em Situação de Rua. Regulamentada pelo Governo do DF em agosto, a política prevê ações nas áreas de saúde, assistência social, moradia, trabalho, educação e garantia de direitos.
Mas, para quem vive nas ruas, política pública não pode ser apenas aquilo que o Estado decide e executa. A população em situação de rua precisa estar no centro das decisões que afetam sua própria vida.
São pessoas que conhecem os territórios, identificam suas necessidades, constroem redes de solidariedade e desenvolvem estratégias cotidianas de sobrevivência e resistência. Esses conhecimentos precisam ser reconhecidos como parte fundamental da construção das políticas públicas.
Protagonismo não é apenas ser ouvido
A participação da população em situação de rua não pode se limitar a ser consultada depois que as decisões já foram tomadas.
Protagonismo significa participar da construção, acompanhar a execução, fiscalizar, propor mudanças e ocupar os espaços onde as políticas são debatidas.
Significa também ter acesso aos meios para contar a própria história.
É nesse ponto que a comunicação popular se torna uma ferramenta de participação e de luta por direitos.
A população em situação de rua não deve aparecer apenas como personagem de matérias jornalísticas, estatísticas ou campanhas institucionais. Ela também pode ser repórter, comunicadora, entrevistadora, fotógrafa, produtora e narradora da realidade.
A rua produz conhecimento
Existe conhecimento produzido todos os dias nas ruas: sobre a cidade, sobre os serviços públicos, sobre violência, saúde, trabalho, moradia, cultura e sobre as próprias formas de organização e resistência.
Valorizar esse conhecimento é reconhecer que quem vive a realidade também tem capacidade para analisá-la e transformá-la.
Por isso, a comunicação popular deve abrir espaço para que a população em situação de rua produza informação e dispute as narrativas sobre si mesma.
Não queremos apenas falar sobre a população em situação de rua. Queremos construir uma comunicação com ela e a partir dela.
Direito à cidade, direito à comunicação
A população em situação de rua é parte da cidade. Tem direito à saúde, alimentação, moradia, trabalho, cultura, educação, segurança, convivência e dignidade.
E tem também o direito de comunicar, de ser reconhecida e de participar das decisões sobre a cidade que também é sua.
A nova política do DF só poderá cumprir seu papel se for implementada com participação social e com o reconhecimento da população em situação de rua como sujeito de direitos e sujeito político.
A Rádio Papelão se coloca nesse caminho: fortalecendo a comunicação feita a partir do território, valorizando saberes populares e criando espaço para que pessoas em situação de rua sejam protagonistas de suas próprias narrativas.
Não queremos falar pela rua. Queremos que a rua fale, produza, participe e decida.
Rádio Papelão — comunicação popular, protagonismo e direitos para quem vive nas ruas.